BRASIL
Augusta, 2010
11/01/2010
JULIANA VILAS
NOS MUROS: CLIMA UNDERGROUND
Esqueça aquele papo de subir a Rua Augusta a 120 por hora. A artéria mais vanguardista de São Paulo está congestionada todos os dias, todos os horários. Mas você pode nem achar tão irritante a velocidade devagar-quase-parando, principalmente no sentido Jardins. A Augusta é uma festa a céu aberto, e a lei antifumo aumentou ainda mais o entra e sai de representantes das faunas mais variadas. Quase todas as casas, de bares a boates, casas de shows e lanchonetes, têm agora uma "balada" paralela nas calçadas. Quando não chove, claro.

Caminhar na Augusta com os ouvidos atentos rende boas microconversas roubadas. "E aí, o que você tá fazendo?", pergunta a garota que encontrou um amigo de infância no fumódromo externo de um bar-boate-restaurante sem porta alternativa ou área sem teto dentro. "Um projeto multimídia de vídeo, exposição, arte e educação com um coletivo de cybercultura", explica o amigo de adolescência, sumido há pelo menos uns 10 anos. Ela também andou desaparacida. "Morei em Londres por dois anos, voltei no ano passado e estou fazendo produção de moda. E montei uma banda".

Deve ser de rock. A tia Augusta é a madrinha das bandas alternativas: sempre abraçou rockeiros da Bela Vista, punks da periferia e rappers do Capão Redondo. Além de todos os jovens que se montam, saem de todos os cantos da cidade, descem na estação Consolação do metrô e se jogam nos braços da tiazinha cult-profana.

Essa tia, aliás, tem história. Na São Paulo rural do século XIX, a Augusta ainda jovem, era de terra e se chamava Maria Augusta. Ligava a Chácara do Capão, na região da Rua Dona Antônia de Queiroz, à Avenida Paulista, então chamada Estrada da Real Grandeza. Anos e anos depois, na década de 1950, a Augusta era uma espécie de Daslu aberta, na época em que o mundo descobria a jukebox e o salto agulha. Reduto de endinheirados, a tia era o paraíso dos alfaiates mais procurados da cidade. Fachadas de lojas de produtos finos, sapatos e chapéus sob medida dividiam as calçadas com elegantes mulheres e homens que se consideravam a elite da cidade. Nos anos 60 e 70, chegaram os jovens de classes mais favorecidas, os palyboys. A rua então passou a ferver ainda mais, com a inauguracão de cinemas e lanchonetes badalados na região. O primeiro buffet de festas da cidade foi inaugurado... na Augusta. A primeira casa GLS da cidade nasceu em 1971... na Augusta.

Algum tempo depois do auge, veio a decadência. Há quem diga que a falência do centro de compras mais chique da cidade foi impulsionada ela invenção dos shoppings centers, mais seguros, refrigerados e protegidos da garoa. E a desvalorização imobiliária mudou o jeitão da rua toda. Um trecho da avenida logo ganhou fama pelas casas de meretrício, enquanto outros, sobretudo na porção Paulista-Jardins, ainda tentavam sem sucesso conservar o ar glamour de outrora. Mas a tia Augusta nunca morre, só se treansforma. Casas de show com pegada alternativa começaram a pipocar aqui e ali; novos e descapitalizados empreendedores foram atraídos pela baixa nos preços dos aluguéis. Alguns comerciantes dos anos 50 e 60, no entanto, jamais passaram o ponto ou fecharam as portas. Estão lá até hoje e, de olho no novo público que transita por ali dia e noite, se adaptaram aos novos tempos. Maurice Plas, o alfaiate francês que fazia as boinas usadas por atores de teatro nos tempos de ouro da Augusta, é um deles.

No fim dos anos 90, a Augusta era quase sinônimo de underground. Casas de prostitução com letreiros coloridos dominavam trechos da rua, onde as garotas de vestes mínimas se ofereciam nas calçadas e no meio-fio. O clima de meretrício se associou ao luxo decadente, que ainda agonizava com saudades do passado. Já ficava difícil subir a Augusta a 120, porque os motoristas passavam devagar para admirar as beldades que ofereciam serviços sexuais a preços módicos. Alguns paravam para negociar com as garotas e formavam fila, causando buzinaços e atormentando o sossego que jamais existiu ali.

A volta por cima

ANDREA DIP
CHRIS LIMA: UMA ESTRELA DO PORNÔ
A abertura do Cinesesc e do Espaço Unibanco de cinema voltaram a atrair as famílias de classe média. Modernetes de todos os tons se aglomeravam nas bilheterias para ver os filmes da Mostra Internacional de Cinema e toda a sorte de longas metragens cults. O estacionamento, que chegava a custar R$ 5 por duas horas, subiu para R$ 10 na região próxima à Paulista. Mas a revolução do chamado baixo Augusta foi mesmo em 2005 com a inauguração do club Vegas, que deu um banho de loja na tia. O casamento entre boa música (rock, eletrônica e black) e decoração criativa (misturando conforto e o estilo kitsch das casas de boa família) deu certo. E logo depois vieram a Outs, o Boca, o Studio SP, o Santa Augusta, o Bar do Malandro, o Pub, o Inferno... deixar o carro por uma hora no estacionamento passou a custar R$ 15 de meia-noite às seis.

As casas que vendem sexo continuam ali, as lojas de roupas ousadas e os cabeleireiros 24 horas também, mas as funcionárias do prazer já não precisam mais se expor à chuva no no meio-fio, porque contam com catálogos na internet. Além disso, os jovens frequentadores da Augusta inibiram, de certo modo, a "boa" freguesia dos bordéis, leia-se homens com mais de 40. Mesmo sem descer do carrão, ficaria complicado ser visto pelo sobrinho que está sentado com os amigos num bar de esquina. A chegada de novas tribos tornou quase impossível distinguir quem é ou não profissional do sexo, porque as meninas bem vestidas e tatuadas se confundem com garotas de programa. E o charme da Augusta é este mesmo: todo mundo junto e misturado.

Chis Lima, "modelo fotográfica, formada em produção de moda e desenho de moda e também apresentadora de programa de TV", conforme seu site pessoal, é atriz da Xplastic, uma produtora moderninha de filmes com apelo erótico. Na internet, ela avisa: "Os trabalhos que realizo como shows, fotografias para revistas, sites, programa de TV são materiais sensuais. Você que adora estar na night não perca meus shows de fetiche com minha nova parceira. Muita sensualidade e ousadia para quem gosta de dominar ou ser dominado", completa ao redigir o perfil profissional. Dona de corpo bem torneado e cheio de tauagens e piercings, Chris usa óculos coloridos nas apresentações.

Onde a tradição resiste

JULIANA VILAS
SEU JOÃO 69: SERENATAS E CARTOLA
Os óculos, aliás, são a sensação fashion da tia Augusta do adultos. Nos botequins mais despojados, jovens usam óculos enormes, à Chiquinha do Chaves, emprestando um ar vanguardista-festeiro à rua que, segundo contam, já teve até tapete vermelho cobrindo a calçada nos tempos das vacas gordas... e chiques. Os frequentadores da senhora Augusta parecem celebrar, o tempo todo, um sentimento que mistura fetiche e respeito pela diversidade. Depois da uma da manhã, parte da juventude baladeira tenta pegar um ônibus e alguns bares com mesas na calçada são obrigados a fechar por conta do "Psiu", lei que multa comerciantes por atrapalhar o sono de vizinhos que cismam em dormir e acordar cedo. O Ecletico's, algumas sinucas lesbican style e outros botequins no mesmo estilo "vende-se de tudo" seguem abertos madrugada adentro, e recebem quem só quer tomar umas "brejas" e conversar.

Quando mais tarde, mais intenso o movimento nos banheiros. Por volta das quatro da manhã, uma epidemia de rinite alérgica parece tomar conta de toda a rua. O tom das conversas, entusiasmadas e já reveladoras, garante o burburinho até o dia clarear. Aos botequeiros, novamente, juntam-se os que saem das boates, igualmente animados para tomar a saideira nos bares ainda abertos. "Oooooooi, como tava lá? Senta aí com a gente", diz a moça de olhos da véspera, que já estiveram bem pintados de preto, ao amigo gay abraçado a uma tatuada de cabelo rosa, com quem passou a noite toda fervendo na pista. Nessas alturas, o barulho dos ônibus que sobem e descem a muito menos de 120 por hora já domina a trilha sonora.

Mas a Augusta não é so isso. Num bar e restaurante sem nome no começo da rua, quase no centrão da capital, profissionais, intelectuais, senhoras com cara de cafetinas, casais de todos os tipos, músicos alternativos e covers de Nelson Gonçalves convivem, bebericam e comem em harmonia, em ambiente familiar. Seu João, de 69 anos, faz serenata para garotas de família, de programa, casais e cafetinas, tendo Nelson Gonçalves e Cartola como inspiração. Ali, a rua mistura velhos alfaiates, vendinhas, lojas de lingerie e sex-shops. A pegada eternamente vanguardista de tia Augusta, a 20 ou 120 por hora, segue noite e dia, dia e noite. Sem parar.

 
 
 
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