BRASIL
Dois beques e a conta
28/10/2009
MARIANA FILGUEIRAS *

MARLBORO: O PENÚLTIMO VÍCIO
Claudio Formiga tem 31 anos e a alcunha de Formigão. Tem uma família equilibrada e uma coleção gigantesca de quadrinhos e séries antigas de TV. Tem ainda um Master System (!) e um monte de contos de terror inéditos embaixo do travesseiro. Em 2005, ele deixou de escrever histórias de vampiros (que conhecia tão bem) e começou a escrever sobre drogas (nem precisa dizer). Abriu o blog Viciado Carioca e soltou o dedo amarelo. Escrevia sobre temas como conversas filosóficas com o próprio bife e até o dia em que "manjou" o Chico Buarque num banheiro.

Em poucos meses, tinha uma legião de seguidores. E uma má notícia: uma denúncia ao Ministério Público e à Delegacia de Repressão aos Crimes na Internet acusava o blog de fazer apologia às drogas. O endereço saiu do ar, mas voltou pouco tempo depois, em novo domínio e com os devidos alertas: "inadequado a menores" e "conteúdo para fins literários". "Sinceramente, não vejo apologia em nenhum dos meus textos. Até porque eles não devem ser levados a sério. Dizer que ficou compelido a fumar maconha porque leu um conto sobre um camarada que ganhou um anão como 'brinde' na boca de fumo é o mesmo que dizer que alguém virou homossexual porque assistiu ao Seu Peru na Escolinha do Professor Raimundo", pondera Formigão.

Os novos contos atraíram mais de um milhão de visitas. Alguns fãs começaram a imprimir, encadernar e distribuir os textos. Era hora de publicar um livro, Comédia da Vida Fumada, que será lançado esta semana no Rio. O Palma Louca chamou Claudio para a conversa a seguir:


"Eu já manjei o Chico Buarque"

E A CERVEJA. MAS ELE PREFERE UÍSQUE
PL: "Diga, Fumaça. Se você pudesse fumar com qualquer pessoa, com quem você fumaria?" Não vale o Jim Morrison...

- Não vale Jim Morrison? Porra, vale Val Kilmer atuando como Jim Morrison então? (risos). Ah... tem que estar vivo? Fumaria com Fernando Henrique Cardoso. Ele foi rebelde na época da ditadura, depois virou presidente da República e vendeu boa parte do Brasil enquanto chamava os aposentados de vagabundos. Agora voltou a ser liberal e fala até na liberação da maconha. Deve ser um bom papo. Até porque FHC é bem próximo de THC. Uma vez eu vi Oliver Stone dizendo que gostaria de fazer um filme de cada presidente americano. Não seria uma má idéia fumar com cada presidente brasileiro. Eles de olhos vermelhos, sorriso na boca e sem papas na língua.  Imagine Itamar Franco, o nosso Bill Clinton, contando suas aventuras sexuais...

PL: "E se agora aparecesse um duende e pudesse te transformar no Jim Morrison brasileiro?" (Ok, prometo não usar mais trechos do livro nas perguntas)

- E eu me chamaria João Morrison? Tô fora. Mas esse papo rolou mesmo com um amigo. A gente pirado vendo uns clips do Jim Morrison e começamos a viajar nessa parada. Como seria o The Doors versão tupiniquim.

PL: O livro tem muitas referências à cultura nerd, como 'O Senhor dos Anéis', 'Star Trek', 'Dexter'. E poucas aos doidões clássicos, ou a gerações de doidões, como os beatniks ou os hippies. O perfil do maconheiro mudou?

- Não. Acho que existe é um estereótipo. Se é hippie, é maconheiro; se é médico yuppie, é viciado em cocaína; se é nerd, é certinho. Essa é uma das coisas de que eu sempre tentei fugir. Maconheiro é qualquer um. Quando você conhece as pessoas, descobre que as drogas não são preconceituosas. Elas atingem todas as classes, todas as tribos e todas as idades. Grupos que você jamais imaginaria, como atletas ou o coroa pai de família. As referências nerds chegaram de forma muito natural. Afinal, eu sou nerd (é o que diz a minha coleção gigantesca de quadrinhos, filmes de ficção e séries antigas) e gosto de escrever sobre isso. Acabou funcionando, porque muitos dos leitores são da minha idade. O primeiro filme do Tela Quente foi "O Retorno de Jedi". Nos video-games, os consoles de 8-bits (Nintendo, Phanton, Master System) chegaram para bater o Atari, e na televisão passavam seriados como "V - A batalha Final", "Super Herói Americano", "Hulk", "Homem-Aranha"... Quem pode ter uma parcela de culpa pelos nerds estarem mais maconheiros ou os maconheiros estarem mais nerds é o Kevin Smith.

PL: Falta sexo aos doidões?

- Não que eu saiba. Junte homens e mulheres e alguma diversão que o sexo vai pintar. Você pode até juntar homens com homens e mulheres com mulheres que o sexo vai pintar da mesma forma. Hoje em dia, um moleque de 17 anos deve ter mais tempo de cama do que eu tenho de escola. Existe também um estereótipo de que é um meio promíscuo. Não é. Os caretas tendem a ver uma mulher "alternativa" como uma mulher fácil. É uma asneira muito grande. Mas rola muito sexo quando as pessoas não estão doidas demais para fazer algo. Já ouvi muitas histórias de quase-sexo. Na hora H alguém dorme, alguém broxa, alguém panca.

DROGA PURA NO RIO? "IMPOSSÍVEL!"
PL: Falta sexo no livro?

- Com certeza tem pouco sexo. Foi uma escolha consciente. Fazer humor sobre sexo é fácil. Se você prestar atenção, quantos filmes e piadas já foram feitos sobre isso? Fazer humor sem falar de sexo é que é difícil. Tentei ficar mais ligado ao nonsense. Não precisa ser um leitor muito atento para notar que tem contos no livro que não falam de drogas. Outros falam de forma superficial e um terceiro grupo que só falam de drogas. Mas a linha de conduta era sempre a mesma: procurar o inusitado.

PL: A piada com a cadeira “reservada” do Patrick Swayze foi uma coincidência ou uma sacada apressada?

- Acho que ele podia ter esperado o livro ser lançado e estar há uns três meses no mercado para morrer. Mas fazer o quê? Não se pode esperar muito do Patrick Swayze. Não posso fugir do clichê de dizer que este conto começou em uma conversa de bar. Eu disse a uns amigos como eu achava o Kurt Russel parecido com o Swayze. Todos começaram a me sacanear, dizendo que eles eram muito diferentes. Eu rebati dizendo que diferente apenas nos filmes, afinal o Kurt Russel fazia filmes cool como "Fuga em Nova Yorque", e Swayze, porcarias como "Ghost". Mas você não pode sair por aí dizendo que acha "Ghost" uma merda sem pagar o preço. Eu comecei a pensar que estava sozinho no mundo. Que era o único que confundia o Russel com o Swayze... Daí escrevi o conto e na época surgiu a história do câncer. Quase ao mesmo tempo.

PL: No início, o blog contava claramente suas aventuras com as drogas. Como você percebeu que transformar o eu-lírico do Claudio em um personagem (o Viciado Carioca) era mais prudente?

- Antes de tudo, queria um afastamento entre o personagem e eu. Eu escrevo em primeira pessoa, coloco muita coisa real (minha e de amigos) nos textos. Tem ficção no meio também, então é um pouco louco. O afastamento era necessário. Ou eu iria ficar meio maluco. Mesmo assim eu já fico. Já me apresentei algumas vezes para outras pessoas como "Vic". Fora isso, eu queria um nome forte. "João, o drogado", "Pedrinho, o chincheiro" não me pareciam muito bons. "Viciado Carioca", Vic para os íntimos, é um bom anonimato. Factível e forte.

PL: Por que você deixou de fora a história do doidão que entrou por engano no show do Elymar Santos no Canecão? Ou a do encontro com Chico Buarque no banheiro? Eram uns dos melhores posts…

- Bem, expliquei isso lá na outra pergunta. Elas fazem parte do “Cotidiano Maldito” e não entravam na minha visão do que deveria ser o livro. Tem mais uma coisa. Se eu colocasse tudo em um livro o blog ia ficar sem nada.... :-) O legal é que as pessoas acham que é tudo inventado. E não é. Eu já manjei o Chico Buarque. Aconteceu na Pizzaria Bráz do Jardim Botânico. Não era show do Elymar Santos, era a festa Ploc com o Rodrigo Quick. (A entrevista atinge o ponto ótimo). Eu fui e achei uma bosta. Eu sou um sujeito muito chato.

PL: Você está careta agora?

- Sim. Só viciado em Jack Daniel's e Marlboro. Estou tentando cortar o Marlboro.

PL:  Pergunto ao Viciado Carioca: você acha que ainda dá para comprar LSD sem anfetamina, maconha sem amônia e cocaína sem farinha no Rio?

- Impossível. Impossível. Impossível. Maconha, só se o cara plantar em casa. LSD, além da anfetamina, você tem que rezar para ninguém ter lambido antes. Mas às vezes isso é até bom. Eu tenho um amigo que era viciado no pó malhado do Rio. Viajamos para Trindade e ele comprou um pó por lá. O negócio tinha uma pureza absurda. Resultado, o cara ficou tão louco e tão paranóico que, totalmente trincado, jogou tudo fora, voltou para casa e uns cinco meses depois largou tudo e virou evangélico.

PL: Tim Maia era um praticante assumido do "triatlon": rebatia álcool com cocaína, cocaína com maconha, maconha com álcool etc. No Rio, este esporte é, por assim dizer, olímpico?

- Olha, eu conheço gente bem doida no Rio. Tem muita gente pegando muito pesado. Até pentatlo as pessoas praticam. Mas as pessoas vêem o Rio e São Paulo como os grande centros dos drogados. A cracolândia e tudo mais, mas quem pega realmente pesado é o pessoal do interior. Você viaja para Friburgo, Teresópolis, Petrópolis, Volta Redonda, Barra Mansa... e aí você vê coisas realmente escabrosas.

PL: Alguns usuários de drogas desenvolvem resistência e perdem a sensibilidade aos efeitos. Sobriedade também pode dar onda?

- As pessoas vêem as drogas como as portas da percepção. Tenho amigos que dizem que só criam depois de usar alguma coisa. Acho que eles supervalorizam as drogas. Comigo é totalmente diferente, eu só consigo criar careta. Tudo que criei sob o efeito de alguma coisa ficou uma merda. Até quando escrevo bêbado, no dia seguinte jogo quase tudo fora. Eu me divirto muito criando e escrevendo. Dou risadas, choro, me emociono. Com certeza você pode ter ondas sóbrio.

PL: Vamos às perguntas obrigatórias. Você acredita que a legalização das drogas possa deixar o Rio mais civilizado?

- As pessoas acham que legalizando qualquer um vai sair fumando maconha pela rua. Não é assim. Outros acham que facilitando o acesso, os curiosos de plantão vão aumentar o número de drogados. Como se o acesso a drogas fosse difícil. Na faculdade, sempre tem um ou dois fornecedores e você não precisa sair da sala de aula para comprar. Vários amigos meus compram sem sair do trabalho. O negócio é entregue na mesa deles! O governo deixa de arrecadar, o crime organizado fatura alto e nós ficamos no meio. É uma idiotice. Estamos vivendo numa Manhattan dos anos 20 no auge da Lei Seca. Se o governo vendesse maconha, teria bastante dinheiro para educar as pessoas sobre os malefícios das drogas, equipar a polícia, investir em educação para dar emprego decente etc.

PL: É hipocrisia condenar o usuário de drogas?

- Achar vilões, é isso que as pessoas querem. O governo conseguiu vender um, o usuário, que deixou de ser vítima para ser o financiador da violência. Como se desigualdade social, a corrupção e essa educação de merda não fossem financiadoraa... além das fronteiras expostas, do salário de miséria. A sociedade não se sente culpada. Quantas vezes vemos garotos queimando mendigos, estuprando garotas, dando porrada em domésticas? Depois o papai passa a mão na cabeça. A mãe hoje tem um namorado, amanhã tem outro, entrega um videogame na mão da criança e deixa que o Wikipédia ensine o resto. Dizem que maconha deixa o cara bobão, que as drogas são uma merda. Droga é bom pra caramba. É por isso que vicia. Dizem que um dia um estranho vai oferecer droga, mas isso nunca aconteceu comigo. Quem oferece droga são os seus amigos de infância, do colégio, do condomínio. É a sua namorada, às vezes o seu professor. Mas eles mentem, querem dizer que a vida é em preto e branco. Para todo vilão, existe um herói. Daí aparece o incorruptível Capitão Nascimento para desfazer a "cagada" dos usuários. Uma babaquice. A vida não é assim, ela é em tons de cinza.

PL: Qual foi o primeiro comentário que seu pai fez quando leu o livro? Você sempre falou abertamente sobre drogas em casa?

- Sempre tivemos um papo bem aberto. Ele é um grande entusiasta de qualquer coisa que eu faça e se sente muito orgulhoso em me ver publicado. Mesmo assim, tive muito receio. O primeiro exemplar foi para ele. Entreguei e saí de perto. Quando comecei a escutar as risadas, começaram a correr lágrimas pelo meu rosto. Chorei como uma criança ao ver meu pai se divertindo ao ler um livro sobre drogas.

PL: Escrever um livro com o material do blog era seu grande sonho. E agora?

- Meu sonho não era escrever um livro "com o material do blog". Era escrever um livro. E, como vários autores sabem, mais difícil que escrever é publicar um livro sem ter que pagar por isso. Consegui fazer isso com a Multifoco e estou muito feliz. Agora estou negociando o meu primeiro romance com uma editora e essa é a minha próxima meta. Já tem nome provisório: Viciado Carioca - amor, drogas e Rock & Roll.

(*) Colaborou Cristiano Marinho

 
 
 
( Comente aqui - 1 Comentário )
 
Fique ligado

Ver todos os Posts


 
Home  I  Brasil  I  Artes  I  Fotojornal  I  Almanaque  I  Sobre Nós  I  Fala Leitor  I  Links  
Design Veronica d' Orey  |  Rafael Fittipaldi  |