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| REPRODUÇÕES |  |  | FRONTEIRA. O habitat da interlíngua |  |
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| E se você ligasse o rádio e ouvisse a seguinte versão de "I am the Walrus", dos Beatles: "Yo soy ele tu és ele / Ele es yo y estamos todos juntos / Vuela, porcón / Hora del facón / Buáaaaaaa, yo lloro. / Grava em la corbata la marca de la empresa, kara, avanti com garra, ponéte la máscara de malo... / Yo soy el avá, todos los avás, el Avá-Ovo / Có, có, có, có, có, có, có...". Que te parece, cabrón? É mais ou menos essa a sensação de estranhamento e simpatia (vai dizer que não achou engraçado?) que acomete os não-iniciados no Portunhol Selvagem. Sim, selvagem, porque portunhol coca-cuela todo mundo fala. Mas selvagem, não.
Mas que karajos é o Portunhol Selvagem? O termo, cunhado pelo escritor Douglas Diegues, batizou uma proto-lengua formada pela mistura de guarani, português e espanhol. Dialeto típico da região da tríplice fronteira, ali onde o Paraguai é meio Brasil, e o Brasil, meio esquecido. "U portunhol salbaje es la língua falada por la gente simples que increiblemente sobrevive de teimosia, brisa, amor al imposible, mandioca, vento y carne de vaca. Es la lengua de las putas que de noite vendem seus sexos na linha da fronteira. Brota como flor de la bosta de las vakas. Es la lengua de mia mãe y de mis abuelos. O portunhol salbaje es una musica diferente, feita de ruídos, rimas inesperadas, amor, água, sangre, árboles, piedras, pássaros, ventos, fuego, esperma", explica "Don" Douglas Diegues.
Don Douglas começou a escrever na "interlíngua", como preferem os homo-academicus, em 2002. No ano seguinte, publicou o primeiro livro: "Dá gusto andar desnudo por estas selvas". Criou um blog, deu plei na cumbia e fez uma festa. A ele juntaram-se outros escritores. Brasileiros, paraguachos, kariokas, kurupis. E artistas, cineastas, músicos, pajés, prostitutas.
Interlíngua terá "encuentro" no Rio em setembro
|  |  | MÁKINA. Será capaz de hablar sozinha? |  |
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| O Portunhol Selvagem se tornou um movimento cultural. Juntos, escreviam, traduziam, compunham, copulavam, tudo em Portunhol Selvagem. O escritor Manoel de Barros achou o maior barato. O cineasta Sylvio Back contou a novidade em Ipanema. O ator Paulo Betti apresentou o Festival de Gramado, em 2007, hablando portunhol selbagem. Entusiasta assumido, o jornalista Alvaro Costa e Silva, o Marechal, passou a publicar matérias na proto-língua, no Jornal do Brasil, e transformou em hit sua também proto-versão de "Detalhes", de Roberto Carlos.
Hoje, com mais de 20 libros publicados pela editora alternativa Yiyi Jambo (com tapas de kartón reciclados do lixão e pintados pelo artista plástico Domador de Yacarés), Don Douglas Diegues y sua turma arrumam as malas rumo ao Rio de Janeiro: nos próximos dias 1º e 2 de setembro, acontece o evento "Arte e Exceções: o Portunhol Selvagem e outras propostas contemporâneas", na Casa da Gávea - com entrada gratirola, por supuesto.
Durante os dois dias, entre debates sobre literatura, exibição de curtas, lançamentos de livros e mostra permanente de arte kartonera (veja a programação no blog), o Portunhol Selvagem vai virar karioka. Com sotaque e tudo: uma das principais atrações do evento será apresentada pelo artista plástico uruguaio Diego de los Campos – uma máquina de falar portunhol selvagem (as Organizações Tabajara não têm nada a ver com isso). "La verdade é que não gosto muito de dizer o que estou por fazer. Quando isso acontece sinto que a obra se muere ante de nascer. Mais em todo caso poso afirmar qui nostra mákina babelina será um chasqueante organismo anticomunicador de la mas poética beleza!", anima-se o autor da obra, de los Campos (ele também inventou um "kozador de paredes" e atualmente tem uma instalação sonora exposta em Florianópolis).
No encuentro carioca, entre os domadores de tatus, vão dar palestras os especialistas Aurora Bernardini (USP), Sergio Medeiros (UFSC), Myriam Ávila (UFMG), Dirce Waltrick do Amarante (UFSC/UFMG), além do próprio Douglas Diegues, Bruno Napoleão, Joel Pizzini, Mario Lesme, Sandro Brincher, Evandro Rodrigues e os artistas plásticos Domador de Yacarés, Claudio Trindade e Diego de los Campos. Afinal, quem disse que o portunhol não é coisa séria? "Uma postura inadecuada para ser criativo é ter o receio de cair no ridículo. Asumindo e dejando aflorar el idiota que todos levamos dentro, nos permitimos ser ridículos sem nos importar dos pensamentos da mediocridade circundante", reflete o artista Diego de los Campos, em portunhol autêntico. "Em español el sentido del arte es cagarte-de-frio. Mas em português isso não cola. O sentido del arte es llenar un buraco que sempre tem que estar vazio. Es não ter sentido. Es un problema irresolúvel".
A volta a Paraguailândia ainda vai demorar. Nem bem deixam do Rio de Janeiro, os escritores e artistas transportunhóis arrumam as malas para a Yanquelândia: a Wisconsin University acaba de convidá-los a participar de um seminário sobre o mercado editorial da América Latina. Rumo ao Obamis! Avanti!
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