The Maze, uma viagem ao paraíso de Bob
The Maze (o labirinto,
em inglês) é o nome do clube e da pousada de Bob Nadkarni, na favela.
Fica na Rua Tavares Bastos, no Catete, no número 414, mas é só
perguntar pela casa do Bob que todos já conhecem.
Para se chegar
lá é preciso gastar sola. A rua é transitável até certo ponto, mas
depois caminha-se por um beco, seguindo as indicações dos moradores.
Todos conhecem o simpático sexagenário que se mudou pra lá há mais
de vinte anos e revolucionou a comunidade.
Quem vê o The Maze
de fora não imagina o casarão que se esconde por trás da fachada, e
muito menos o que acontece lá dentro. É um espaço amplo, em diferentes
níveis, com sofás e mesinhas, telas gigantes pintadas pelo próprio Bob
nas paredes, um palco, e, no fundo, o terraço que dá de cara para o Pão
de Açúcar. Vista deslumbrante. O Palmalouca esteve lá na noite de jazz
de julho e ficou até de madrugada, querendo mais.
Encontro planetário na favela
Já
na porta, o anfitrião de olhos azuis e cabeça grisalha nos recebeu às
gargalhadas, misturando português e inglês. "Welcome! Bem vindos! Come
in! ", ele berrava. Entramos com um grupo de neozelandeses .
"Esta
é a sessão número 38 da noite de jazz. A gente começou com um público
de 12 pessoas e agora nunca tem menos de 400 pessoas aqui. É
extraordinário, porque juntou dois mundos que não se misturavam antes:
o de lá de baixo, do asfalto, e o de aqui de cima", conta Bob, no seu
português com sotaque carregado.
No palco, dois alemães, um
belga e um brasileiro tocam Gerswhin, Duke Ellington, Cole Porter e
outros. E quem quiser arriscar pode tocar ou cantar com eles. E é claro
que o Bob participa: toca trompete e canta com voz rouca, feliz da
vida. Afinal é a realização de um sonho.
"Agora tenho um paraíso
aqui. Tudo o que você pode imaginar. A vida que eu sempre quis.
Consegui a liberdade e, por osmose, eu a transmito pra todo mundo que
vem aqui. Eu não poderia morar na Inglaterra nunca mais, meu Deus do
Céu!", diz, radiante.
Na platéia, entre caipirinhas e cervejas,
gringos de todo o planeta e alguns cariocas se divertem. Dançam,
conversam, paqueram. Definitivamente, é um território onde as pessoas
se sentem livres, e, por incrível que pareça, não há baixaria. É um
ambiente cool, relaxado, como o jazz.
O
pessoal da favela também freqüenta o local e gosta muito:
"Subconscientemente, o pessoal se identifica com o jazz porque todos
sabem que nasceu no povão, mesmo que não seja brasileiro¨, explica Bob.
A
mistura é total. Há jovens classe média, estrangeiros que querem voltar
para casa dizendo que conheceram uma favela, e ainda o pessoal da
comunidade. Um verdadeiro labirinto de sotaques e sons.
| LUCRECIA FRANCO |  |  | Sueca, Edgar Duvivier e Pablo Pessanha |  |
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|
| No
palco, um karaokê de jazz. Na noite em que fomos, cantaram duas
inglesas, um brasileiro e, sempre, o Bob. Tocaram ainda outros
conhecidos do público carioca: Edgar Duvivier (sax) e Paulo Pessanha,
d'Os Optimistas (piano e percussão). Ninguém queria sair dos
holofotes.
Selma, mulher do
belga Peter, um dos músicos fixos da banda, que toca nos metrôs da Europa e no The Maze, nos conta que
os músicos e convidados ficam tocando até sete horas seguidas. "É uma
cachaça", resume.
O certo é que as noites de jazz no The Maze
são um sucesso e ajudam a desfazer o estigma de que favela é um lugar
proibido para se divertir. Bom, também vale lembrar que uma unidade do
Bope está sediada na Tavares Bastos. Hoje, segundo o Bob, os
traficantes foram embora e o que ficou é o que as pessoas da aldeia
global procuram: calor humano.
"Eu vim para cá porque me
sentia bem. Tem isso do vizinho te pedir uma taça de açúcar, e por
aí vai. Tem esse sentimento de comunidade que se perdeu, que foi para o
ralo. Não é como na Inglaterra, onde te perguntam se o tempo está bom
cada dez anos", brinca.
Além de espaço musical, o The Maze tem
uma pousada no segundo andar e ainda serve de locação para
documentários, novelas e filmes. O mais recente é O Incrível Hulk II, onde o ator Edward Norton se joga da varanda do Bob.
Anedotas
não faltam na vida e na casa do Bob. Vale a pena dar uma chegada lá
para conhecer a figura e curtir o som, o ambiente e a vista da Baía da
Guanabara. Só recomendamos pegar leve na bebida, para não ficar verde e
cair da varanda ou até mesmo virar um Hulk.
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